Quinta do Vale Meão

Quinta do Vale Meão!

Na região do Douro Superior, em Vila Nova de Foz Côa. Foi, em 1877, o último investimento da visionária dona Antonia Adelaide Ferreira. Área fora da região esperada do Douro, mas próxima da Quinta do Vesúvio, que na época também era da Ferreirinha e que sabia a qualidade das uvas de lá!

Vista da Capela da quinta

Local onde foi elaborado o primeiro vinho tinto seco do Douro…o Barca Velha 1952! Não havia energia na região na época, e Fernando Nicolau de Almeida teve que trazer enormes quantidades de gelo da cidade de Matosinhos para poder controlar a temperatura na fermentação desse vinho seco.

A partir da década de 70, o trineto da Ferreirinha, Francisco Javier de Olazabal, assumiu a quinta do Vale Meão e, aos poucos, foi comprando todas as parte dos demais herdeiros, até que em 1994 torna-se, junto com seus filhos, único proprietário dessa quinta.

Até então, todas as uvas produzidas aí eram vendidas para a empresa AA Ferreira SA, também de descendentes da Ferreirinha, e eram a base dos melhores vinhos deles.

A partir de 1998, o Sr Francisco Olazabal resolve renunciar ao cargo de presidente da AA Ferreira SA para se dedicar à quinta do Vale Meão ao lado dos seus filhos, formando a empresa F. Olazabal & Filhos Ltda.

Os filhos (Francisco – enólogo, Jaime e Luiza) participam da gestão da empresa, e conseguem, nos vinhos elaborados, manter toda a paixão criada pela tataravó Ferreirinha por essa região do Douro!

Fomos conduzidos pelas vinhas da quinta pela responsável pelo turismo da empresa, Maria Ferreira, e vimos vários lugares dessa quinta magnífica! São 300 hectares de terra, 100 de vinhas!

Degustam os seguintes vinhos:

Degustação Vale Meão Julho/2023

•Meandro do Vale Meão Branco 2022! 12% de álcool. Elaborado com 40% Arinto e 60% Rabigato, no Douro Superior. Bom corpo e acidez, aromas citricos e frutas tropicais. Excelente custo benefício, mas pequena produção. Difícil chegar no Brasil! DW 92!

•Meandro do Vale Meão Tinto 2021: vinho jovem, frutado, elaborado com 45% Touriga Nacional e 38% Touriga Franca, restante de Tinta Roriz, Tinta Barroca, Alicante Bouschet e Baga! DW 93!

•Monte Meão Cabeço Vermelho 2020! 100% Tinta Roriz de solo de aluvião. Espetáculo de Tinta Roriz, um dos melhores varietais desta casta que já tomei! DW 96!

•Quinta do Vale Meão 2020! O top da vinícola. Estágio de 16 a 18 meses em barricas de carvalho francês. 55% de Touriga Nacional e 40% Touriga Franca, 2% Tinta Roriz, 3% Tinta Barroca. Maravilhoso! Aromas de frutas negras, groselha, com uma ótima estrutura em boca! Longa persistência! DW 100!

•Quinta do Vale Meão Vintage Tawny 10 anos! Um 10 anos surpreendente, qualidade espetacular! DW 95!

Visita maravilhosa! Imperdível!

Você conhece o Douro?

A história do Douro

A história do vinho no Douro começou há muitos séculos! Existem evidências arqueológicas do que seria uma vinícola no castelo da Fonte de Milho próximo à região da Régua, datando do final do império Romano (por volta de 300 d.C.)!

Estação Arqueológica do Alto da Fonte de Milho – Peso da Régua

Com a invasão dos muçulmanos em 711 na península Ibérica, a produção de vinho não foi proibida, mas foi desestimulada! Com a chegada dos Mouros vindos da Galícia, foi criado um novo governo em Portuscale (hoje a cidade do Porto), que seria o embrião de um novo reino, com a chegada de Henry, primo do Duque da Borgonha, que se casou com Teresa, princesa de León, em 1094. As primeiras quintas do Douro datam dessa época, como a Quinta da Folgosa (atualmente Quinta dos Frades), Paço de Monsul e Quinta de Mosteirô.

O filho de Teresa e Henry, Afonso Henriques, iniciou campanhas para expulsar os Mouros para o Sul, e recebeu ajuda das frotas Inglesas. O reino de Portugal recebeu reconhecimento pelo Papa Alexandre III em 1179, e em 1249 conquistaram o Algarve e adquiriam a forma que conhecemos hoje de Portugal! Um país com 600km de extensão e 200km de largura, cortado por 2 grandes rios – o Douro e o Tejo!

Desde então o comércio entre Portugal e Inglaterra começou a prosperar…Ingleses enviando lã e roupas, e portugueses enviando azeite, vinho e frutas.

Assim, a história do Douro e do Porto é inseparável da história de Portugal emergindo como uma nação comerciante, com a qual a Inglaterra teve uma relação muito importante!

Partindo para o século XVII…em 1689 inicia-se uma guerra entre a Inglaterra e a França, tornando inviável a importação de vinhos desta última para os ingleses, aumentando muito o consumo de vinhos portugueses na nação britânica. Em 1703 foi criado o Tratado de Methuen, que dava preferência à importação de produtos têxteis ingleses e à exportação de vinhos portugueses.

Com um aumento expressivo da demanda de vinhos portugueses, numa região com dificuldade para aumentar sua produção por suas características peculiares, muitos começaram a adulterar os vinhos! Começaram a adicionar suco de baga de sabugueiro para dar mais cor e aromas para o vinho.

Marques de Pombal

Para restaurar a qualidade dos vinhos da região, Marques de Pombal criou em 1756 a Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, e delimitou a região produtora! Foram demarcados inicialmente 201 marcos de granito, e 5 anos depois, mais 134 marcos. A Companhia era capaz de fixar preços, taxas, proteger a autenticidade do produto (na época muito questionada), determinar quem poderia comercializar os vinhos na cidade do Porto… todos vinhos que seriam encaminhados para o Brasil deveriam passar pela Real Companhia! Várias medidas para regulamentar a produção de vinhos foram criadas. Isso obviamente não foi visto com bons olhos pelo governo britânico, que teve que começar a pagar mais pelos vinhos, mas não foi suficiente para desfazer 4 séculos de aliança anglo-lusitana.

E essa estratégia deu certo para a economia duriense! Exportações para a Inglaterra aumentaram de 12.000 pipas para 17.000 pipas 4 anos após! O preço que estava em torno de 20-30 escudos passou para 40 escudos a pipa! Apesar disso, nem todos estavam satisfeitos com as medidas pombalinas. Em 1776, a exportação de vinhos das regiões de Viana, Monção, Bairrada e Algarve foram proibidas!

Marques de Pombal continuou trabalhando no protecionismo do Douro até 1777, quando morreu o rei José I, que o colocou no cargo. E quem assumiu seu lugar ao trono foi sua filha, Maria I. Seu primeiro ato foi demitir Marques de Pombal! E com isso, várias medidas pombalinas foram canceladas, e a Real Companhia Velha perdeu sua monopolia na exportação de vinhos para o Brasil!

O Douro Superior

Somente em 10/05/1907 (146 anos depois…) a região demarcada se estendeu para o Douro Superior, com um decreto assinado por João Franco.

E em 1982 foi criada a Denominação de Origem do Douro para a produção de vinhos de VQPRD e sua regulamentação.

E agora, cerca de 250 anos depois…como estão as coisas no Douro?

O Douro corresponde atualmente a uma área de 26 mil hectares. Se divide em 3 regiões: o Baixo Corgo, o Cima Corgo e o Douro Superior.

Quais são as diferenças entre elas?

Baixo Corgo é a região mais próxima da cidade do Porto. Tem o clima mais ameno das 3, e encostas menos inclinadas. Corresponde a 14 mil hectares (51% do total). Tem menor amplitude térmica e maior índice pluviométrico (900mm). Sua produção principal vai para os vinhos do Porto Ruby e Tawny. Cidade central: Peso da Régua.

Cima Corgo é onde se encontram as quintas mais famosas. 19 mil hectares plantados (36% da produção). Cidade central: Pinhão. De onde saem muitos Porto Vintage e LBV de destaque. Tem também uma designação especial: Moscatel do Douro (fortificado).

Douro Superior: 8.700 hectares (13% da produção). Região mais quente e mais seca! Cidade central: Vila Nova de Foz Côa. Em crescimento – vários vinhedos novos.

O solo do Douro é predominantemente Xisto, com manchas de solos de origem granítica.

A região é caracterizada pela sistematização das encostas, com manejo da vinha de forma tradicional não mecanizada.

Normatização de 55L/há para tintos e rosados e 65L/há para brancos.

Castas predominantes:

Entre as tintas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinto Cão, Tinta Amarela e Tinta Francisca.

Entre as brancas: Gouveio (ou Verdelho), Malvasia Fina, Viosinho, Rabigato, Esgana Cão, Folgasão, Moscatel Galego.

O Barca Velha

A história do Douro se confunde com a do Vinho do Porto! Isso porque até 1952 não era possível fazer um vinho seco nessa região! Não havia energia elétrica, e como no Douro as temperaturas no Verão chegam a 40°, não tinha como controlar a temperatura para fermentar as uvas e formar um vinho fino seco convencional…até 1952!

Fernando Nicolau de Almeida – filho do degustador da Casa Ferreira – assumiu a posição do pai em 1950 e iniciou o seu projeto de criar um vinho seco de destaque no Douro!

Como viabilizar a fermentação das uvas? Como baixar a temperatura se não havia energia elétrica, muito menos na região isolada do Douro Superior? Simples…usar gelo!

E assim foi! À meia-noite saíam de Matosinhos (próximo da cidade do Porto) diversas embarcações cheias de gelo para até 08h da manhã estarem na Quinta do Vale Meão, onde o primeiro tinto seco nasceria! E foi em 1952 que surgiu a primeira safra do Barca Velha! Um vinho com estrutura incrível, que tinha uma excelente longevidade!

Atualmente temos a imponente e história produção de vinhos do Porto na região, ao lado de vinhos brancos e tintos secos com uma qualidade extraordinária!

Vinho do Porto

O famoso vinho do Porto é um vinho fortificado, o que significa que após o início da fermentação, que ocorre tradicionalmente em lagares de granito, ocorre a adição de aguardente vínica levando a concentração de álcool para próximo de 20%. Com isso, as leveduras não conseguem mais prosseguir a fermentação iniciada e sobra uma quantidade maior de açúcar residual, que é controlado pelo enólogo.

Tipos de Vinho do Porto

Temos dois estilos principais de vinhos do Porto: o Ruby e o Tawny. Além desses, temos em menor quantidade vinhos do Porto brancos e rosé.

O estilo Ruby se caracteriza por um estilo mais frutado, com menor tempo de passagem em madeira, em recipientes maiores – os Balseiros. Isso vai levar a uma menor oxigenação e irá manter a coloração mais viva do vinho. Podem ser divididos em Ruby (o mais simples e acessível), Ruby Reserva (estilo premium do Ruby, com qualidade um pouco superior), LBV e o Vintage, que seria o ápice de qualidade do vinho do Porto.

Quando temos uma safra excepcional, é tentado lançar o Porto Vintage. Esse vinho é enviado para o IVDP (Instituto do Vinho do Douro e do Porto) após 2-3 anos de estágio em madeira, que vai declarar se esse vinho é realmente um Vintage, de acordo com critérios de qualidade pré-estabelecidos. Se não se tornar um Vintage, o vinho permanece em madeira por mais 4 a 6 anos, quando então podem ser lançados com LBV (Late Bottled Vintage), que também possuem uma qualidade excelente.

O outro estilo é o Tawny (que significa “aloirado”). O vinho do Porto desse estilo tem passagem em barricas menores de madeira (pipas), e por isso passam por um processo oxidativo mais intenso, adquirindo características próprias. Além do estilo mais simples do vinho do Porto Tawny, que tem passagem de 3 anos em madeira, temos também o estilo Tawny Reserva (5 a 7 anos em madeira, vinho de qualidade superior ao Tawny) e o estilo envelhecido (10, 20, 30 ou 40 anos) e o Colheita.

Os envelhecidos (10 a 40 anos) são feitos com blends de safras, com um mínimo de 10 a 40 anos de estágio em madeira. Já o Colheita é um vinho do estilo Tawny realizado a partir de uma safra somente, lançado com no mínimo 7 anos de passagem em barricas, mas muitas vezes ficando por décadas até ser lançado, de acordo com a demanda.

Vinhos secos do Douro

Com a modernização das vinícolas foi possível elaborar vinhos secos com qualidade cada vez melhor! São inúmeros os vinhos secos que ganharam destaque mundialmente, com um nível de qualidade impressionante!

Em geral, os tradicionais cortes portugueses se mantem nesses vinhos icônicos, com blend das castas típicas da região, brancas ou tintas. Alguns varietais de destaque tem surgido também, em especial elaborados com a Touriga Nacional, uva nascida no Dão mas que se destaca no Douro.

Referências:

Port and the Douro – 4ª edição – Richard Mayson

Os sabores do Douro e do Minho – Marcelo Copello. Editora Senac. 2008.

http://www.douroprofundo.com

O Douro e a Quinta das Carvalhas

Fizemos a visita acompanhada pelo Engenheiro Agrônomo Álvaro – que trabalha na casa há décadas e não esconde sua paixão pelo Douro e por tornar a Quinta das Carvalhas uma das melhores da região!

Foi uma longa visita cheio de filosofia! Muito interessante!

O Douro!

Conhecido mundialmente pelo vinho do Porto, foi a primeira região demarcada em 1756 por Marques de Pombal.

Mas quando falamos dos vinhos secos do Douro, nem todos conhecem o seu potencial!

Na verdade, por dificuldades de acesso local, por não haver energia elétrica em grande parte do Douro até por volta da década de 60, nem tinha muito como pensar em fazer vinho seco. As temperaturas mais amenas necessárias para a fermentação não poderiam ser atingidas facilmente. Basta lembrar do primeiro vinho seco do Douro…o Barca Velha 1952. Precisaram trazer gelo da região de Matosinhos, mais próximo do Porto, para que se atingisse as condições necessárias para sua elaboração.

Além disso, com as encostas do Douro, é impossível fazer um vinho larga produção, colheita mecanizada pra ter um vinho de entrada com preço competitivo com os sul-americanos, australianos ou sul-africanos.

A colheita só pode ser manual! A produção por videira já é limitada pelas características do terroir local!

A natureza já se encarregou desses detalhes para resultar em uvas de qualidade!

Pensando agora nos consumidores… podemos imaginar uma pirâmide.

Sua base, em torno de 80% dos consumidores, são aqueles que querem um vinho barato, simples, não buscam complexidade de texturas, aromas e sabores. Para esses, os vinhos do novo mundo se encaixam melhor. O Douro, por todas dificuldades já discutidas, não conseguem entregar um produto com um valor muito baixo.

15% já tem um conhecimento de vinho, e buscam algo mais complexo do que vinhos simples de entrada. Aqui, a região do Douro já tem muito a oferecer.

E 5% buscam o que há de melhor em vinhos. Novamente, o Douro é o lugar para oferecer isso! Ícones com Barca-Velha, Quinta do Vale Meão; diversos vinhos originados das mágicas e complexas vinhas velhas (Abandonado, Vinha Maria Teresa do Crasto…), isso sem falar nos Vinhos do Porto Vintage, que são um capítulo a parte!

Explicação desenhada por um pedaço de Xisto, composto do terroir local

Esse deve ser o foco dos vinhos do Douro. Essa parcela de cerca de 20% dos consumidores que entendem um pouco mais de vinho, e que devem saber que tesouros engarrafados o Douro pode nos entregar!

Degustamos no final desse passeio pelas origens, dificuldades e caraterísticas de terroir local, os seguintes vinhos:

•Douro Doc Branco: corte de Viosinho e Gouveio, dos pontos mais altos das vinhas (mais frio…amadurece menos, tem maior acidez). Aromas florais, minetal, com um bom corpo e acidez. 50% com estagio em barricas de carvalho francês.

•Tinta Francisca 2014: interessantíssimo! Varietal dessa casta delicada que em vários aspectos lembra um “Pinot Noir” do Douro! Saboroso, leve. Muito gostoso.

•Touriga Nacional 2015: seguimos para a casta clássica da região, um vinho potente, com aromas de frutas negras maduras, groselha.

•Carvalhas Vinhas Velhas: espetacular! 45 castas misturadas em videiras de 95 a 107 anos de idade! Muita fruta negra madura, taninos potentes, longa persistência! Divino!

•Carvalhas Porto Vintage 2007: ótimo vintage do Porto!

Visita excelente, inesquecível!